Ouro de Tolo
Não é possível medir o valor das coisas como antes Crônicas | 4 de fevereiro de 2011
Talvez você veja sentido no que faz de nove às seis, enquanto trabalha. Pode ser que ocupe alguma daquelas profissões que as crianças sonham ser quando crescer. Médico, bombeiro, professor ou artista. Acredita, ao fim do dia, ter recebido uma “gratificação” que não pode ser paga em dinheiro. Neste caso, hoje eu vim estragar seu dia.
Mas, na verdade, creio que só me escutará o leitor que exerce uma atividade cuja utilidade para a humanidade é tão clara quanto um discurso sociológico de Gilberto Gil em mandarim. Quem está preso a uma pilha de papeis a serem catalogados, carimbados, furados, despachados para outro setor, que os processará e devolverá tudo ao fim, pela falta de um “xis” qualquer em uma quadradinho. E não muda nada se você for algum cibernauta modernésimo, cercado por terabytes. Nossa celebrada conversão digital é só mais do mesmo, tão vazia quanto o tambor que já era tocado nos primórdios da humanidade.
Pois, desde que os deuses fugiram do céu assustados, com o estrondo do primeiro avião, passou a ser mais difícil para quem ficou aqui embaixo enxergar alguma figura nas nuvens. Se o mundo em preto e branco era simplista e cruel, a velocidade atual transformou a paisagem em um grande borrão cinza e indistinto. É um tempo paradoxal, quando um telefone é capaz de fazer maravilhas indescritíveis, como levar este texto a seus leitores em qualquer lugar que estejam, com o custo equivalente à alimentação de uma família por um longo período.
Portanto, não se engane. Não é possível medir o valor das coisas como antes. Ainda assim, por baixo de todas as pilhas de papéis, normativos, regras de etiqueta, ética, microchips, conversas fiadas no elevador e cumprimentos vazios por corredores, abafados pelo téc-téc almofadado dos teclados, há um ser humano fazendo o mesmo que seu primeiro ancestral fez ao afiar a lança e sair da caverna. Não importa o quanto você tenha polido nossos sapatos, agregado pronomes de tratamento antes do nome, adicionado o títulos ao cartão de visita para descrever nossa atividade. Ao fim, só estamos sobrevivendo.
Fonte: http://estadocronico.com.br